Ela colocou o relógio bem em frente à cama. Assim que abria os olhos era a primeira coisa que avistava. Ainda neblinado, os olhos não conseguiam ler as horas. Mas, não era este o seu maior propósito. Ela queria lembrar-se de que mais um dia nascera. Que as horas, para ela, estavam correndo e escorrendo tal qual água nas mãos; fugindo como a areia, quando pisada, como que para se proteger. E ela sabia que assim como a água derramada, não podia voltar atrás para fazer o que deixara por fazer. Que assim como a areia que foge dos pés, o tempo levava consigo as oportunidades que deixara para trás. O relógio. Com o relógio ela tentava lembrar que precisava estar viva. Aliás, que precisava viver. Que a vida pulsava em seu entorno, mas não estava sendo devidamente usada, se esvaía. Vazia. Sem grandes significados. Sem grandes conquistas. Sem atitudes. Sem amores. Com dores, por certo. Mas só isso. E ela sabia que isso era muito pouco para a infinidade de coisas que a aguardava a um passo de si mesma. Ela sabia que precisava romper o casulo. Ela tentava. Mas, por outro lado, ainda não havia completado a metamorfose. E o tempo passava. O relógio na parede do quarto a lembrava disso. Todas as manhãs. E assim ela começava o dia. Consciente de que precisava sair do casulo que a protegia – só não sabia ao certo de quê.
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